• Novembro de 2017
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Setor automobilístico está a caminho da indústria 4.0

Brasília e Washington – Setor mais duramente atingido, nos últimos anos, pela crise da economia, a indústria brasileira se encontra diante de um novo desafio: o avanço de novas tecnologias, baseadas na intensa digitalização e automação, que está revolucionando os métodos de produção e redesenhando o mapa global da competitividade entre países. Em nações que lideram esse movimento, como Estados Unidos e Alemanha, indústrias de ponta estão investindo cada vez mais em smart factories ou fábricas inteligentes. Com o uso de sensores e softwares sofisticados, as máquinas, que antes apenas respondiam a comandos externos, agora são capazes de reunir milhões de informações, processá-las e interagir com outras máquinas – e até com outras fábricas. Tudo, quase sem intervenção humana, por meio da internet.

Os novos sistemas de produção estão dando forma ao que vem sendo chamado de quarta revolução industrial. As três primeiras vieram com a invenção da máquina a vapor, no século 18; a massificação das linhas de montagem, no início do século 20, e a integração de computadores à produção, a partir dos anos 1970. Especialistas estimam que ainda correrão 15 a 20 anos para que a nova mudança tecnológica se consolide em escala global, mas são taxativos em dizer que ela é irreversível.

“É uma nova manufatura que está surgindo”, diz Helmuth Ludwig, vice-presidente executivo da subsidiária norte-americana da alemã Siemens, uma das empresas que está à frente dessa tendência. A nova indústria promete não apenas ser mais eficiente, mas revolucionar o relacionamento com o mercado. No futuro, diz Ludwig, as fábricas terão a capacidade de alterar sua configuração de forma rápida, modificando as características dos produtos para atender demandas específicas de clientes e consumidores. É o que vem sendo chamado de customização em massa.

ESTRATÉGIAS

O tema está cada vez mais presente na agenda econômica dos países. Na Alemanha, que cunhou a expressão indústria 4.0 para definir a nova tendência, governo, empresas e centros de pesquisa interagem para apoiar o avanço dos sistemas produtivos. A Comissão Europeia definiu como meta que 20% do valor agregado à produção no continente deve vir do setor manufatureiro em 2020. Os EUA, que preferem usar a expressão manufatura avançada, veem na tecnologia a oportunidade de revitalizar o setor industrial e reverter a migração de empresas para outros países, em busca de mão de obra barata, que caracterizou as últimas décadas. O que conta, agora, não é o baixo custo do trabalho, mas a alta produtividade trazida pela digitalização. China, Coreia e Japão também aparecem como polos de desenvolvimento da nova manufatura.

O Brasil está atrasado nesse terreno, embora abrigue empresas que usam tecnologia de ponta e tenham grau de excelência nos setores em que atuam. De maneira geral, porém, o país investe pouco em inovação e tem um ambiente regulatório considerado inadequado. Além disso, não tem uma rede confiável de internet em banda larga e forma poucos engenheiros e técnicos especializados, essenciais para o desenvolvimento da nova indústria.

Em março, o governo criou um grupo de trabalho interministerial com a tarefa de mapear a capacidade existente no Brasil nessa área, identificar gargalos e formular uma estratégia para inserir o país na rota do novo avanço tecnológico. A diretora de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Maria Luísa Machado Leal, reconhece as deficiências, mas diz que é possível recuperar terreno.

Para Maria Luísa, o país pode saltar etapas se houver articulação entre governo, setor privado e universidades, e se forem estabelecidas parcerias internacionais para absorver conhecimentos já desenvolvidos lá fora. Um dos problemas mais difíceis é que a atualização tecnológica requer investimentos, que estão em queda no país. Na avaliação dela, será preciso criar mecanismos de financiamento para apoiar a atualização do parque industrial. “A crise atual impede as empresas de definir grandes investimentos, mas temos que nos preparar para isso. Em pouco tempo, nossos principais concorrentes vão estar operando nesse novo ambiente tecnológico”, diz a diretora da ABDI.

Produtividade

O resultado vem na forma de redução de custos e maior qualidade dos produtos. Em Amberg, na Alemanha, uma unidade modelo da Siemens de produção de controles logísticos tem índice de apenas 12 defeitos em cada milhão de peças produzidas. A elevação da produtividade total da economia é outro efeito. Estudo da consultoria Booz & Company apresentado no Fórum Econômico Mundial, em 2013, estimou que um aumento de 10% nos investimentos dos países em digitalização pode resultar em acréscimo de 0,75% do PIB e diminuição de 1% na taxa de desemprego.

União e inovação

Nos EUA, a colaboração entre empresas, centros de pesquisa e universidades, com apoio do governo, tem acelerado os avanços na área da nova indústria. No Centro Comunitário de Manufatura Avançada (CCAM), no estado norte-americano da Virgínia, 28 companhias de ponta, como Alcoa, Airbus, Canon e Siemens, além da Nasa, utilizam equipamentos sofisticados e técnicos especializados para desenvolver pesquisas voltadas a melhorar os processos produtivos e a qualidade dos produtos que fabricam. As despesas são rateadas entre os associados. “É um modelo inédito de inovação aberta, que reduz os custos das empresas com pesquisa e desenvolvimento”, diz Joseph Moody, presidente e diretor-executivo do CCAM. Para manter o espírito colaborativo, o centro não recruta empresas concorrentes.

O governo da Virgínia incentiva a instalação de indústrias que estão na vanguarda da tecnologia. A poucos quilômetros do CCAM, a Rolls Royce Crosspointe produz partes e peças de turbinas para aviões. Na fábrica, toda digitalizada, há poucos funcionários – todos altamente especializados. Eles podem operar várias máquinas de uma só vez, e algumas funcionam quase que de forma autônoma. É possível, por exemplo, programá-las para produzir no fim de semana e voltar só na segunda-feira para ver os resultados. Softwares avançados permitem que os próprios equipamentos detectem falhas na linha de produção, avisem os programadores e encaminhem as soluções.

A unidade foi inaugurada em 2011. Em 2014, a divisão de turbinas da britânica Rolls Royce foi adquirida pela Siemens. “Há 10 anos, não teríamos condições de montar uma fábrica como essa. Seria preciso ter o dobro de funcionários e a fabricação dos diversos itens levaria duas vezes mais tempo”, afirma Lorin Sodell, diretor de Produção da empresa.

A Local Motors, empresa com sede em Phoenix, no Arizona, está avançando numa das possibilidades mais interessantes abertas pela manufatura avançada: a produção em larga escala, mas adaptada às preferências individuais dos clientes. É o que os especialistas chamam de customização em massa, o que só é possível com a capacidade de reconfigurar os modelos de produção com rapidez, de acordo com as demandas. A empresa testa a montagem de carros num sistema em que os chassis são produzidos em impressoras 3D a partir de modelos preexistentes. O processo permite até que os consumidores desenhem on-line o automóvel de sua preferência. A companhia espera poder comercializar os primeiros veículos a partir de 2018. (OF)

*O repórter viajou a convite da Siemens.

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