• Novembro de 2017
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Indústria não tem mais esperança de recuperação em 2016

O desempenho ruim da indústria no terceiro trimestre do ano não só anulou o ganho conquistado nos seis primeiros meses do ano como levou a produção a um patamar 1,6% inferior ao do fim de 2015, jogando um balde de água fria nas esperanças de uma recuperação ainda em 2016.

Frente ao primeiro semestre, o patamar de produção em setembro estava 0,5% menor. Os dados são da Pesquisa Mensal da Indústria, divulgada nesta terça-feira pelo IBGE.

Para economistas e representantes do setor, os números do terceiro trimestre refletem o fim do colchão proporcionado pela valorização do dólar — no primeiro semestre, a cotação média de R$ 3,69 impulsionou as exportações e a substituição de importados por produção nacional. No terceiro trimestre, com a cotação média da divisa recuando a R$ 3,24, a indústria voltou a patinar.

De janeiro a junho, o setor obteve cinco resultados positivos. Já nos três meses seguintes, o único crescimento na produção ocorreu em setembro: 0,5%, depois de um tombo de 3,5% em agosto.

A alta em setembro foi ancorada em apenas três atividades cujo desempenho melhorou: produtos alimentícios (6,4%), indústria extrativa (2,6%) e veículos automotores, reboques e carrocerias (4,8%). Entre os demais, predominaram as taxas negativas.

“É um crescimento medíocre”, avalia Paulo Francini, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

“Nunca houve recuperação, e a produção voltou a cair. Aquilo que se projetava como eventual retomada claramente não se confirmou. Lembra aquele trecho da música Conceição: ‘Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu’.”

“Cansaço da brasileira”

Para André Macedo, gerente de Indústria do IBGE, é preciso relativizar o resultado de setembro, que, à primeira vista, parece positivo.

“É um resultado precedido de duas quedas seguidas (em julho e agosto), e só duas das quatro categorias (bens intermediários e bens de consumo duráveis) e nove das 24 atividades tiveram crescimento. Somadas, as três atividades responsáveis por essa alta na margem representam 35% do setor. Então, temos pouco mais de um terço da indústria explicando esse crescimento na passagem de mês”, afirmou.

De acordo com o IBGE, em setembro, a indústria do país operava 20,7% abaixo do nível recorde, alcançado em junho de 2013.

“A queda da demanda doméstica é tão forte que precisaríamos de uma alavanca do setor externo. As exportações crescem, mas menos do que é preciso para dar mais ritmo ao crescimento da economia. Sem o dólar apreciado do primeiro semestre teríamos um ano ainda mais difícil. O resultado de setembro frustrou nossas expectativas. E esse último trimestre não será de recuperação, porque o consumidor continua endividado, sem emprego e com acesso dificultado ao crédito. Essa recuperação mais clara só virá em 2017, se o Banco Central der seguimento à queda de juros iniciada este mês”, afirma Flávio Castelo Branco, gerente executivo de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Segundo Castelo Branco, essa frustração explica a queda na confiança do empresário captada por sondagens realizadas em outubro. No caso do indicador apurado pela CNI, a trajetória de melhora da confiança foi interrompida depois de cinco altas seguidas.

O Índice de Confiança da Indústria (ICI) da Fundação Getulio Vargas também recuou em outubro, após alta no mês anterior.

“O aumento da confiança nos meses anteriores se deu em razão do cansaço da desesperança. As pessoas cansam de não ter esperança. Passaram a depositar na mudança de comando do país uma expectativa de melhora. Mas, passados alguns meses, nada mudou”, analisa Francini.

Para Rafael Fagundes Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), houve uma reacomodação das expectativas depois que os resultados negativos de julho e agosto deixaram claro que “a situação da indústria é mais complicada do que se esperava”. Cagnin defende que o setor necessita de dinamizadores adicionais para voltar a crescer.

“A crise da indústria tem o formato de “U”. Chegou ao fundo do poço e pode ficar presa nesse baixo dinamismo por algum tempo porque o desemprego e a inflação, apesar do arrefecimento, ainda comprometem o poder de compra dos brasileiros. E os investimentos em infraestrutura estão parados por conta da Lava-Jato e da falta de capacidade de financiamento do BNDES. É preciso estancar essa apreciação do real para que as exportações voltem a dar alívio ao setor”, afirma.

Mais otimista, Castelo Branco, da CNI, diz acreditar que projetos de infraestrutura devem sair do papel em 2017, favorecendo toda a cadeia produtiva e gerando empregos, o que faria a indústria voltar a crescer.

Já o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ao comentar o resultado da indústria, em um evento na Fiesp, ressaltou a gravidade da crise econômica, mas mostrou otimismo.

“Ninguém sai de uma depressão do dia para a noite. O que estamos dizendo é que já esperamos um crescimento do PIB para 2017, em alguns setores se nota diminuição da velocidade de queda. A indústria já cresceu 0,5% no mês de setembro, e esse número fala por si só”, diz.

O empresário Humberto Gonçalves, de 45 anos, dono da Forjaria e Estamparia Tec Stam, calcula que sua produção e faturamento caíram entre 35% e 40% desde que a crise econômica começou a se aprofundar. Ele produz peças para indústria de máquinas, implementos agrícolas e fábricas de tratores — e observou que todos os segmentos passaram a comprar menos.

“A diferença desta crise para outras é que todos os segmentos foram atingidos. Pelo menos, não perdi clientes”, diz Gonçalves, que tinha 64 funcionários há dois anos e hoje conta com 32.

Outra consequência da crise, ressalta, é que os bancos fecharam o acesso ao financiamento para as pequenas empresas.

Para Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), os resultados do terceiro trimestre dificultam qualquer previsão otimista.

“Efetivamente acreditávamos que, a essa altura, estivéssemos começando um período de recuperação. Mas isso só vai ocorrer quando um ambiente mais positivo se consolidar, impulsionando a demanda e os investimentos”, afirmou.

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