• Novembro de 2017
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Indústria cresce após 5 trimestres, mas segue longe do patamar pré-crise

Após cinco trimestres seguidos de queda, a indústria deu um primeiro passo à frente, ainda que bem atrás dos níveis pré-recessão. O setor foi o único entre os que recuavam a ter desempenho positivo no PIB do segundo trimestre de 2016, divulgado nesta quarta-feira (31), na contramão de comércio e serviços, que continuam encolhendo. A alta foi de 0,3% na comparação com o trimestre anterior, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para o economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) Rafael Cagnin, apesar do cenário 'menos desfavorável', ainda é cedo para falar em recuperação da indústria. “Podemos citar uma moderação da crise”, define. “Pode ser sinal de uma recuperação mais consistente, mas pode ser apenas um suspiro seguido de uma nova fase de deterioração”.

Gesner Oliveira, economista e sócio da GO Associados, vê indícios de uma retomada daqui para frente, embora lenta e modesta. Segundo ele, ainda não há dados que apontem para um crescimento claro nos componentes da demanda (como consumo das famílias e investimentos em bens de capital), essencial para estimular uma alta mais acelerada na produção.

“É um sinal de que a economia está em recuperação, mas, para ter sustentação, ela ainda depende de um aumento nos investimentos em infraestrutura, que podem estimular os demais setores atualmente em retração”, analisa Oliveira.

A produção da indústria brasileira cresceu 1,1% em junho, a quarta alta mensal seguida, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mesmo assim, o setor recuperou apenas parte das perdas ao longo de 2015 e ainda ficou 18,4% abaixo do recorde visto em junho de 2013.

Na visão do economista Rafael Bacciotti, da consultoria Tendências, apesar da melhora em dados da produção mensal, a indústria ainda precisa criar muito fôlego para compensar as quedas ao longo dos últimos meses.

“Há uma melhora concentrada em bens de capital [que produzem outros bens] e uma certa acomodação em setores de bens duráveis [como automóveis e eletrodomésticos], mas ainda estamos em um patamar muito baixo”, diz Bacciotti.

Redução dos estoques

Um dos motivos para a retomada da produção industrial foi o fim de um ciclo de ajuste nos estoques industriais (quantidade de bens disponíveis para venda). O acúmulo de mercadorias "encalhadas" havia forçado setores da indústria a reduzir sua produção ao longo de 2015.

“Depois de tantos meses seguidos de queda, alguma coisa é forçada a ser desengavetada. Não dá pra passar tanto tempo adiando investimentos e a reposição de equipamentos com o mesmo nivel de competitividade”, diz Cagnin, do Iedi.

Com estoques mais baixos, a indústria pode retomar o ritmo produzido no passado, mesmo que a demanda ainda não estimule o setor. Em julho, o índice que mostra a evolução de estoques ficou em 48,9 pontos, uma queda em relação a junho, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Valores acima da linha divisória de 50 pontos indicam alta dos estoques.

Cagnin também aponta que a própria dinâmica da crise levou a números menos desfavoráveis no setor. “A pressão por mais cortes na produção ficou menor em 2016, mas ainda assim a capacidade ociosa da indústria continua muito elevada em vários setores. É um problema, ainda mais quando se fala em uma recuperação que precisa ser liderada pelos investimentos”, analisa o economista.

Apesar de resultados que apontam para o início de uma possível retomada, o número de empregados da indústria continuou em queda em julho, ao mesmo tempo em que a ociosidade permaneceu elevada, segundo dados da CNI.

Peso do setor na economia

A participação da indústria no PIB nacional caiu 4,7 pontos percentuais (p.p.) entre 2010 e 2015, passando de 27,4% para 22,7%, segundo dados do Banco Mundial. Esse percentual representa menos da metade do pico alcançado em 1987, quando a fatia do setor industrial na economia brasileira atingiu 45,9%.

O maior declínio aconteceu entre 1993 e 1996 (veja o gráfico abaixo), durante a transição para implementar o Plano Real, quando o governo promoveu a desindexação da economia, ajudando a enfraquecer a indústria. Nesse período, a contribuição da indústria no PIB recuou de 41,6% para uma fatia de 25,6%.

Confiança cai após 5 altas seguidas

Um dos motivos para acreditar que a recuperação da indústria pode ir além do 2º trimestre é a melhora nos indicadores de confiança como gatilho para as decisões de elevar a produção, diz Oliveira, da GO Associados. Para o economista, um aumento na confiança dos empresários teria efeitos positivos sobre o setor a partir do segundo semestre.

Em julho, o índice que mede a confiança da indústria subiu pela quinto mês seguido, segundo sa Fundação Getulio Vargas (FGV), alcançando 87,1 pontos, o maior nível desde novembro de 2014 (87,5 pontos). Em agosto, contudo, o indicador voltou a cair, puxado por uma piora das expectativas em relação aos meses seguintes.

Câmbio ajudou produtores que exportam

O crescimento da produção industrial no período ficou mais concentrado em segmentos com inserção internacional, ajudados pela receita maior em dólares com as exportações ou pela substituição de produtos importados por nacionais no mercado interno, segundo Cagnin.

“A ampliação das exportações foi o grande fator dinamizador da indústria desde o fim do ano passado. Por isso, se o câmbio voltar a se valorizar no semestre o setor corre o risco de perder força”, acredita o economista do Iedi.

O efeito da depreciação do real frente ao dólar, que passou de R$ 4 no fim do ano passado, ainda tem reflexos no desempenho dos exportadores, mesmo com a recente virada do câmbio, que tem uma perda acumulada de quase 20% este ano, explica Oliveira.

O rombo nas contas externas (diferença entre recursos que entram e saem na balança comercial, serviços e renda) caiu 71% nos sete primeiros meses do ano frente ao mesmo período de 2015, o menor desde 2009. Além do dólar relativamente alto encarecendo os importados e barateando os produtos brasileiros, outra explicação para a melhora foi a recessão, que reduz a demanda por produtos e serviços no exterior.

Fonte: G1

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