• Outubro de 2017
Home / Notícias

Burger King usa franquias para crescer sem gastar

A gigante americana do fast-food Burger King Worldwide Inc. e a rede canadense de cafeterias e "donuts" Tim Hortons Inc. possuem mercados de origem distintos e menus muito diferentes. Mas há algo em comum entre esses novos sócios: eles são empresas de fast-food que geralmente não operam seus restaurantes.

O modelo de negócio que compartilham — terceirizar para franqueados a captação de recursos e a operação de seus milhares de pontos — representa um dos maiores benefícios da união das duas companhias.

Esse modelo permitiu que a firma brasileira de investimentos 3G Capital, que comprou o Burger King em 2010, acelerasse significativamente a expansão internacional com um mínimo de investimento próprio, o que foi crucial dada a saturação do mercado americano.

Sob o controle da 3G, o Burger King, sediado em Miami, completou recentemente a venda de quase todos os restaurantes que ainda eram próprios. A rede agora opera 51 lanchonetes em Miami, menos de 1% de suas quase 14.000 unidades ao redor do mundo. Isso o torna uma exceção, mesmo num setor que há muito tempo depende de franquias. O McDonald's Corp. possuía 19% de seus 35.429 restaurantes no fim do ano passado e o Wendy's Co. era dono de 18% de suas 6.557 unidades.

O Burger King anunciou na terça-feira que irá comprar o Tim Hortons por US$ 11 bilhões, com financiamento de US$ 3 bilhões da Bershire Hathaway Inc., a holding do investidor Warren Buffett. A 3G será dona de 51% da nova empresa.

Em vez de vender hambúrgueres, o Burger King basicamente coleta os royalties dos franqueados, que também arcam com quase todos os investimentos para expandir a marca em novos mercados. O Tim Hortons usa o mesmo modelo, o que o tornou uma compra atraente, disse o diretor-presidente do Burger King, Daniel Schwartz, em entrevista ao The Wall Street Journal. No fim de 2013, a rede canadense era proprietária de apenas 16 de seus mais de 4.500 restaurantes em todo o mundo.

"O investimento de capital para expandir a marca ao redor do mundo vem dos fraqueados", disse Schwartz, que irá dirigir a nova empresa. "Por isso gostamos de nosso modelo de negócios."

A estratégia ajudou o Burger King a aumentar seus lucros em 17% no ano passado, para US$ 234 milhões, em relação a 2009, o ano anterior à compra do controle pela 3G Capital. O faturamento, contudo, caiu fortemente porque a rede vendeu os restaurantes aos franqueados.

Desde que o Burger King abriu o capital novamente, em junho de 2012, a cotação de suas ações mais que dobrou, para US$ 31. A ação caiu 4,3% na terça-feira, depois de ter subido de forma expressiva um dia antes, em antecipação ao anúncio do acordo. Já as ações do Tim Hortons avançaram 8,1% na terça-feira, após também terem subido na véspera.

Mesmo assim, alguns franqueados não estão felizes com a estratégia do Burger King.

"Eles não estão mais no setor de restaurantes. A fonte de renda agora não vem da operação e eles apenas recebem seus cheques de royalties", diz um franqueado de longa data do Burger King que tem dezenas de lanchonetes. Ele acrescenta que, desde que a 3G assumiu o controle, a rede se esforça pouco para ajudar os franqueados a melhorar os lucros ou cumprir os novos regulamentos, como as obrigações decorrentes da Lei de Proteção e Cuidado ao Paciente, conhecida como Obamacare, a lei que alterou o sistema de saúde americano.

"Antes da 3G, eles tinham pessoas que vinham e se engajavam com você", diz o franqueado. "O Obamacare está aí e eles ainda não nos disseram como lidar com isso." Alex Macedo, o presidente do Burger King para a América do Norte, diz que a rede ampliou seu suporte aos franqueados desde que a 3G comprou a empresa. A rede mais que dobrou o número de gestores regionais, para 225, e aumentou o número de visitas a restaurantes para ao menos uma vez por trimestre, ante uma a cada semestre, disse.

Segundo ele, restaurantes que estão com desempenho abaixo do esperado recebem três visitas por trimestre. E o Burger King realiza uma conferência anual para os franqueados com especialistas que discutem assuntos como a nova lei americana da saúde. "É um momento difícil para todo mundo e ainda temos espaço para melhorar nossas operações", diz Macedo.

Vender os restaurantes para os franqueados tem se tornado uma estratégia cada vez mais popular entre as redes americanas, incluindo o Wendy's e a Applebee's, da DineEquity Inc. O McDonald's recentemente anunciou planos de vender ao menos 1.500 lanchonetes para franqueados até o fim de 2016, principalmente na Ásia, Europa e Oriente Médio. A Starbucks Corp., que estava relutante em deixar terceiros operar suas cafeterias, começou recentemente a franquear lojas na Europa.

As redes procuram por operadores nos mercados estrangeiros para construir a marca no exterior — uma fonte essencial de crescimento num momento em que o mercado de fast-food americano está quase saturado. O número de lojas de fast-food nos EUA cresceu cerca de 60%, para mais de 288.000, no ano passado, ou cerca de 900 por cada milhão de americanos, ante 736 por milhão em 1986, segundo a empresa de pesquisas Technomic Inc.

O Burger King usou operadores internacionais para ampliar sua presença na Ásia, Europa, Oriente Médio e América Latina. No ano passado, foram abertos 700 novos Burger Kings em todo o mundo, ante 150 em 2010, quando a 3G comprou o controle da cadeia. A rede fechou 2013 com 193 lanchonetes no Brasil.

O diretor-presidente do Tim Hortons, Marc Caira, que se tornará o vice-presidente do conselho de administração da nova empresa, diz que a rede canadense será capaz de ampliar sua presença global muito mais rapidamente com a ajuda do Burger King do que seria sozinha."Velocidade é uma vantagem competitiva", diz o executivo. "Eles estão nesses mercados há muito mais tempo do que nós, então por que não alavancar isso?"

Schwartz, diretor-presidente do Burger King, diz que a rede foi capaz de crescer rapidamente em mercados onde ela não era amplamente conhecida. "Há apenas alguns anos, o Burger King não estava em países onde hoje possui várias centenas [de restaurantes]", diz.