• Novembro de 2017
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Lojas do comércio varejista vão à Justiça para não fechar

SÃO PAULO - A queda no consumo, combinada com os juros altos e o aluguel mais caro das lojas, está levando grandes redes de varejo a recorrer à recuperação judicial para não fechar as portas. A busca de trégua contra os credores na Justiça por grandes redes de lojas, dizem os especialistas, é uma novidade. Desde que a nova Lei de Falências entrou em vigor, em 2005, e a recuperação judicial substituiu as concordatas, a indústria era o setor que mais usava esse recurso. Ao longo de 2015, porém, o cenário começou a mudar, e, somente neste início de ano, três varejistas de porte correram à Justiça com pedidos de recuperação: duas de vestuário, a Barred’s e a GEP, dona das marcas Luigi Bertolli, Cori, Emme, e franqueada exclusiva da marca americana GAP; e as lojas de brinquedos BMart.

— Nos últimos 20 anos, as redes varejistas se formalizaram e passaram a ter gestão profissional. A GEP e a Barred’s, por exemplo, cresceram muito, têm mais de 100 lojas cada. É surpreendente o pedido de recuperação dessas empresas, que fazem caixa mais rápido com produtos de preços mais baixos do que, por exemplo, o varejo de eletroeletrônicos, que são mais caros. É um sinal que a crise econômica está mais prolongada e profunda — explica Ana Paula Tozzi, diretora executiva da GS&AGR Consultores, especializada em varejo.

SHOPPINGS CONCENTRAM MAIORIA DOS DÉBITOS

O escritório Nicola, Saragossa e Campos foi contratado por Barred’s e GEP para tocar o processo de recuperação de ambas. O advogado Rogério Nicola, um dos sócios, diz que, desde que a empresa foi aberta, há três anos, 95% dos pedidos de recuperação judicial vinham do setor industrial. Agora, são os varejistas que estão batendo à porta. Ele conta que foi sondado por outras grandes marcas que podem pedir o socorro à Justiça para não quebrar:

— A recuperação protege a empresa. Blinda contra o avanço dos credores sobre o patrimônio. É a chance de se reinventar e não fechar as portas, enquanto reescalona o pagamento das dívidas — diz.

Ele lembra que a blindagem dura 180 dias, prazo que a companhia tem, depois de aceito o pedido pela Justiça, para renegociar os débitos.

Shoppings, bancos e governo são os principais credores das varejistas que estão jogando a toalha, diz Ana Paula Tozzi. Segundo ela, as lojas têm de 15% a 17% de seus custos com o pagamento dos pontos nos shoppings, e mais 35% com impostos, o que, num ciclo recessivo, pode levar à inadimplência. A consultora observa ainda que, na recuperação judicial, possíveis dívidas trabalhistas podem ou não entrar no processo, dependendo do entendimento da Justiça. Já débitos com impostos ficam fora da renegociação.

— Com as expectativas negativas para a economia neste ano, acredito que outras redes tradicionais de varejo devem recorrer à recuperação judicial para não fechar — prevê Ana Paula.

A Barred’s tem 118 lojas e 578 empregados e uma dívida de R$ 104,2 milhões. São cerca de 320 credores — a maioria shoppings, além de bancos e fornecedores. Já a BMart, presente em 28 shoppings de São Paulo e Minas Gerais, soma mais de R$ 118 milhões em dívidas. O pedido da Barred’s foi feito em 3 de março, enquanto a BMart foi à Justiça em 16 de fevereiro.

Ao acatar o pedido de recuperação da GEP, também em fevereiro, o juiz Marcelo Barbosa Sacramone, da 2ª Vara de Falências do Tribunal de Justiça de São Paulo, escreveu em seu despacho: “A crise econômico-financeira que acomete as quatro requerentes é latente e incontroversa, lhes sendo cabível o pedido de recuperação judicial como meio de solução para a adversidade que atravessam”. A GEP opera 97 lojas no Brasil: 46 Luigi Bertolli, 18 Emme, 16 Cori, 10 GAP e 7 Offashion. Com cerca de 1.600 funcionários, o grupo faturou R$ 544 milhões em 2015, segundo dados do pedido de recuperação.

CRISE CHEGA AOS GIGANTES DO SETOR

O mercado espera para breve o pedido de recuperação da fluminense Leader. A rede tem dívida financeira que beira R$ 1 bilhão e fechou 2015 com prejuízo de quase R$ 200 milhões. Segundo o site da empresa, são 92 lojas em oito estados. A situação da Leader piorou depois da decisão do banco BTG Pactual, seu controlador, de deixar ou reduzir sua fatia na rede. No início de março, o banco colocou a consultoria Alvarez & Marsal, especialista em gestão de empresas com problemas financeiros, para gerir a Leader. A mudança seria justamente para elaborar o pedido de recuperação.

A retração da economia está batendo também no caixa dos gigantes do setor. O Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, teve uma queda de 80,2% no lucro líquido em 2015 sobre o ano anterior. O ganho no ano passado foi de R$ 251 milhões frente ao R$ 1,27 bilhão em 2014. A Via Varejo, dona de Casas Bahia e Ponto Frio e braço de eletroeletrônicos do grupo, viu seu lucro despencar 99,7% em 2015, ano em que fechou 23 lojas e cortou 11 mil funcionários.

O Magazine Luiza teve desempenho ainda pior: fechou o ano passado com prejuízo de R$ 65,6 milhões. Em 2014, havia lucrado de R$ 128,6 milhões.

Até mesmo redes estrangeiras que pretendiam se instalar no Brasil estão adiando os planos por causa da crise. É o caso da sueca H&M, que chegou a estudar o mercado brasileiro, mas não tem definição de quando — nem se — vai fincar sua bandeira por aqui. A H&M está no Chile e no Peru. A também sueca Ikea, de móveis e decoração, abriu um escritório no país, mas adiou os planos de iniciar a operação, apesar de ter aqui fornecedores que exportam para outras unidades da empresa.

— A crise está batendo em todos. Embora o pequeno empresário ainda seja mais vulnerável e represente de 55% a 60% dos pedidos de recuperação, as dificuldades também têm crescido entre as grandes empresas. E tudo indica que vamos bater novo recorde este ano. Ainda estamos cavando o fundo do poço — diz Luiz Rabi, economista-chefe da Serasa Experian

Fonte: Extra

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