• Abril de 2018
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Cidades mineiras que estão à sombra de um só negócio sofrem com desemprego

Belo Oriente, São Gonçalo do Rio Abaixo e Jeceaba – Myrene Kênia dos Santos, de 30 anos, ex-auxiliar administrativa de uma grande siderúrgica produtora de tubos de aço, e o marido, Elvis Júnior Miranda, 33, ex-transportador autônomo de carga que alimenta a mesma empresa, investiram suas economias no comércio de produtos agropecuários em Jeceaba, na Região Central de Minas Gerais. A cidade, de apenas 6 mil habitantes, não só abriga a usina de tubos, segunda maior empregadora local depois da prefeitura, como depende da fábrica para contabilizar quase 70% da receita municipal. A 222 quilômetros, em São Gonçalo do Rio Abaixo, a história se repete com personagens diferentes. Leandro Amora comanda um supermercado em terras dominadas por uma grande mineradora, que dá ocupação e renda a boa parte dos clientes da loja ou aos parentes deles. A companhia responde por 75% de toda a produção local de bens e serviços, medida pelo Produto Interno Bruto (PIB).

A dependência de um grande negócio que move a economia de pequenas cidades não é uma simples coincidência nesses lugares. Há mais de duas dezenas de municípios mineiros que se desenvolveram à sombra de uma mineração, uma indústria de porte ou uma usina hidrelétrica. É o caso de Nova Lima, Ouro Preto, Catas Altas, Tapira, Brumadinho e a conhecida Confins, sede do Aeroporto Internacional Tancredo Neves, na Grande Belo Horizonte. Só agora, num momento generalizado de crise, parte delas se dá conta dos problemas decorrentes desse arriscado progresso e das eventuais vantagens de abrigar o investimento. É o que vai mostrar a série de reportagens que o Estado de Minas publica de hoje a quarta-feira.

A pedido do EM, a economista Maria Aparecida Sales Souza Santos, da Fundação João Pinheiro, identificou 26 municípios pequenos com alta dependência de uma única e grande empresa ou atividade, que, em comum, bancam mais da metade dos PIBs municipais (veja o quadro). Outro estudo, destacado pelo professor de economia da Una Paulo Roberto Bretas, indica que esse número de municípios chega perto de uma centena.

A histórica Mariana é um exemplo dos riscos que um único empreendimento pode representar ao fechar as portas, ainda que temporariamente, como ocorreu na Samarco Mineração. O rompimento da barragem de rejeitos de minério de ferro de Fundão deixou 17 mortos no maior desastre ambiental do país e uma série de incertezas sobre o futuro da economia do município.

“Nosso presente nos obrigou a pensar no futuro. O desastre ambiental foi um tapa de luvas. Está na hora de encontrar saídas. Não dá para ter a economia dependente de uma única receita”, admite o prefeito de Mariana, Duarte Júnior. Ele ressalta que 89% da arrecadação municipal vêm da mineração. “A situação de Mariana é de desespero e a diversificação se tornou a nossa busca. Antes do desastre, recebíamos no Sine (posto do Sistema Nacional de Emprego) de 200 a 300 pedidos de emprego por mês, agora o número chega a 1,6 mil.”

São Gonçalo do Rio Abaixo, onde a mineradora Vale, que divide com a multinacional BHP Billiton o controle da Samarco, sustenta as receitas do município, sente efeitos semelhantes. Desde que a baixa na demanda mundial derrubou o preço do ferro e reduziu o ritmo de investimentos da companhia, a população do pequeno município se ressente do baque e muitos de seus moradores, agora, acompanham dia após dia a cotação das chamadas commodities (produtos agrícolas e minerais cotados no mercado internacional).

Em 2006, a mineradora se instalou no município, iniciando a exploração da mina de Brucutu, entre as maiores operadas pelo grupo. A mina provocou uma explosão de desenvolvimento no município e em seu entorno. A arrecadação da então pacata cidade de 10 mil habitantes cresceu de R$ 20 milhões em 2005 para ao redor de R$ 160 milhões em 2015. É difícil encontrar moradores que não sejam ligados ou tenham familiares trabalhando para a Vale ou as empresas prestadoras de serviços à companhia.

PROSPERIDADE E TURBULÊNCIA Em São Gonçalo do Rio Abaixo, entre oito empresas instaladas na cidade para prestar serviços à mineradora Vale, cinco encerraram suas atividades e partiram, abandonando pelo caminho investimentos em infraestrutura e deixando desempregados, como o auxiliar em atividades de fauna e flora Ronildo Santos, 37 anos. Há quatro anos e meio, Ronildo trabalhava para a Bioma, empresa ambiental prestadora de serviços para a mineradora. Desde o fim de 2015, ele está à procura de um novo emprego, sobrevivendo de pequenos bicos.

A mulher de Ronildo, Juliana Navarro, 28 anos, tinha a carteira assinada na cozinha de um dos maiores restaurantes da cidade e também foi dispensada depois que o movimento das terceirizadas caiu. “As aulas já começaram, mas ainda não comprei o material escolar. Está difícil garantir até a cesta básica”, confessa Juliana. “A firma foi embora de uma hora para outra. Agora faço o que aparece, capino, roço pastos”, conta Ronildo.

José de Macedo, 68 anos, foi pego pela crise econômica quando planejava inaugurar uma marmoraria e depósito para construção civil, com investimento inicial de R$ 100 mil, em São Gonçalo do Rio Abaixo. Ele participou de processo de concorrência da prefeitura que lhe deu o direito a explorar o galpão público por 35 anos. As obras atrasaram e a agora a demanda da cidade ligada a construção civil foi reduzida pela crise. Com isso, José Macedo precisou adiar seus planos. “Todo negócio deve ser planejado. Queria estar funcionando há dois anos. Agora, só inauguro a partir do segundo semestre de 2017.”

Jeceaba é o outro típico caso de um município agrícola que se agarrou à promessa de desenvolvimento, ao ser escolhido pelo grupo francês Vallourec para sediar uma grande usina de tubos de aço orçada em US$ 1,6 bilhão. O tempo de bonança durante a construção da fábrica e os dois primeiros anos de operação multiplicaram as receitas municipais e animaram moradores a bancar uma infraestrutura que a cidade jamais havia imaginado existir.

A alegria durou até que a crise nas indústrias siderúrgicas e empresas de óleo e gás bateu forte. A companhia paralisou suas atividades por dois meses no ano passado, e ainda funciona com um terço da sua capacidade de produzir. Myrene e o marido, Elvis, que haviam trabalhado na usina, se animaram a adquirir a atual Agropecuária Jeceaba, mas, em 2015, viram cair as vendas em pelo menos 30%. “Quando a fábrica parou, houve apreensão e agora o comércio começa a se recuperar, mas precisamos abrir o leque para vender outros produtos”, afirma Myrene. A loja investiu em artigos de pet shop e acessórios para piscinas, além de passar a vender roupas e acessórios da moda country.

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