• Novembro de 2017
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Indústria de alimentos e cosméticos dribla crise e cresce em Pernambuco

A crise que provocou taxas recordes de desemprego, inflação e cortes de gastos públicos também atingiu em cheio a produção industrial nacional. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a atividade fabril caiu 9% entre janeiro e agosto deste ano no país. A retração, no entanto, parece não ter chegado às fábricas de alimentos e cosméticos de Pernambuco.

De acordo com o IBGE, o estado aumentou sua produção em até 11% nestes setores. Os empresários admitem o resultado positivo, mas afirmam que o faturamento ainda é menor que as expectativas iniciais. Outro setor que vem registrando crescimento no estado é o canavieiro.

A pesquisa industrial mensal do IBGE, que mostrou a maior queda da indústria brasileira dos últimos 12 anos. também afirma que a indústria alimentícia cresceu 11,2% em Pernambuco nos oito primeiros meses de 2015, em comparação com o mesmo período do ano passado.
O estado ainda remou na contramão de uma das maiores retrações econômicas do país no setor de cosméticos. A fabricação de produtos de beleza cresceu 9,1% neste período. Também houve crescimento no varejo, que vendeu 6,8% mais artigos de cosmética, perfumaria e farmácia no primeiro semestre deste ano que no do ano passado, segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Pernambuco (Fecomércio-PE).

“Crise não é depressão econômica. A crise afeta setores de forma distinta e há setores que estão muito bem mesmo com a crise”, lembra o economista Thobias Silva, da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe).

“Há setores na indústria pernambucana que vêm apresentando um crescimento relativamente bom, acima da média nacional e do Nordeste. Mas não são muitos setores. Quando olhamos o comportamento da economia, percebemos que a produção física da indústria teve uma queda de 2,1% até junho no estado, em comparação com o mesmo período do ano passado. Mas no Nordeste essa queda foi de 5%; no Brasil, de 6%. Isso mostra que a situação de Pernambuco ainda é melhor, sobretudo nesses setores que se destacam positivamente”, esclarece.

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Mas até pequenos crescimentos representam um ganho, segundo a também economista Amanda Aires. “Lógico que crescer é o ideal, mas é tudo uma questão de perspectiva, porque tem gente que está encolhendo. Nesta situação de crise, estagnar já é uma coisa boa. O ruim é cair e todo mundo está caindo. Então, se você consegue manter o nível de produção anterior, já está na frente. Manter um ganho é ainda melhor, porque você não está sendo tão afetado pela crise quanto as outras indústrias”, defende.

Beleza e bem-estar

A fábrica de produtos capilares Hair Fly, que fica em Abreu e Lima, no Grande Recife, entendeu o recado e celebra o crescimento de 21% em setembro, apesar de estar abaixo do esperado. A marca também conseguiu expandir sua área de vendas para outros estados do Nordeste ao longo do ano. “Nossa meta, antes dessa desestabilização, era crescer 25%. Podemos fechar o ano em até 15%. Mesmo assim, diante desta situação, é um resultado positivo”, acredita o diretor financeiro Lucas Sultanum, dizendo que o grande trunfo da empresa é o foco nas classes B e D.

A funcionária pública Ogimary Nóbrega, 35 anos, reconhece que, quando se trata de beleza, é possível fazer ajustes para manter os cuidados diários. Ela conta que fez cortes no orçamento de toda a casa, mas continua cuidando de si mesma. Para isso, aposta em produtos de qualidade e preço acessível. "A gente corta os gastos não essenciais, troca produtos de marcas específicas por outros similares, enxuga as compras, diminui o lazer. Mas a mulher tem a necessidade de se sentir bem. Por isso, sacrifica outras coisas para cuidar de si", reconhece.

Quem sai lucrando é a consultora da Natura Luciana Santos, que fornece as maquiagens, hidratantes e sabonetes para Ogimary. Ela conta que começou a vender produtos de beleza em abril, em plena crise financeira. Mesmo assim, já consegue faturar pelo menos R$ 2 mil por mês.

“Sou administradora e estava sem trabalhar há cinco anos. Neste ano, dei uma olhada nos empregos, mas ofereciam um salário baixo ou me deixavam presa o dia todo. Então, resolvi apostar. Hoje, no meio de uma crise que está fechando várias portas, consigo ter uma ótima renda extra", vibra.

Para Luciana, a responsável pelo sucesso das vendas é a preocupação das brasileiras com a beleza e o bem-estar. "As mulheres não deixam de se cuidar, mesmo na crise. Muitas já cortaram tanta coisa que fazem questão de manter pelo menos essa rotina de cuidados”, diz, contando que os batons e os hidratantes são os produtos mais procurados pelas pernambucanas.

“Além disso, na crise, as pessoas ficam mais deprimidas e procuram mais produtos de estética. A pessoa que fica desempregada, por exemplo, e tenta ficar arrumada tanto para melhorar a autoestima quanto para procurar um novo emprego”, completa a economista Amanda Aires, explicando que os brasileiros continuam investindo em cosméticos, mesmo tendo cortado outras despesas. “Os gastos com produtos de estética não têm uma presença muito expressiva no orçamento das pessoas, não chegam a 10%. Então, têm espaço pra crescer”, esclarece.

Os números são vistos com um pouco mais de pessimismo pelo sindicato das indústrias de produtos farmacêuticos, medicamentos, cosméticos, perfumaria e artigos de toucador do estado de Pernambuco (Sinfacope). O presidente do Sinfacope, Hercílio Victor, acha que as pesquisas podem trazer uma noção falsa de crescimento. Sem revelar valores, ele admite que o faturamento das empresas pernambucanas de cosméticos mantém-se acima do de outros setores.

“O setor ainda mantém certa estabilidade. Mas, devido aos ajustes econômicos no Brasil e no Estado, caímos do crescimento de dois dígitos ao ano para um. Ainda que alguns números apresentem relativo desempenho, não se pode afirmar que navegamos em mares calmos”, diz Hercílio Victor.

Hercílio ainda revela que, por conta desta situação, o setor já apresenta queda de 48% no número de contratações e também avalia a possibilidade de repassar o aumento de custos para o consumidor. Por isso, diz que o verdadeiro responsável pelos bons números das pesquisas são os produtos de higiene pessoal, que também entram na cota do IBGE.
“O setor de higiene pessoal e produtos cosméticos, assim como o de alimentos básicos, sofre um pouco menos que os demais uma vez que se faz necessário comer e estar higienizado diariamente. Difere-se de setores como o de veículos e vestuário, porque tem produtos de uso diário, como sabonete, desodorante, creme dental e alimentos básicos”, explica.

Alimentação

Também é por esta razão que o setor de alimentos mantém-se em alta. Prova disso é a ASA Indústria, que produz itens básicos da alimentação dos brasileiros no Recife e conseguiu manter um crescimento de 12% ao longo deste ano. “A relação de fidelização que construímos com o consumidor também contribuiu. Em um momento em que as pessoas não podem arriscar os gastos, eles optam pelos mesmos produtos porque sabem que terão suas necessidades atendidas”, acredita o diretor de marketing Wagner Mendes, contando que os itens mais vendidos nos últimos meses foram os sucos, molhos de tomate, misturas para bolo e o tradicional flocão de milho.

Já o crescimento das fábricas de produtos “extras”, como o sorvete, pode ser explicado pela substituição de atividades de lazer ou refeições em restaurantes por programas mais baratos, como um lanche. “Muitas vezes as pessoas deixam de comprometer sua renda com bens duráveis, como TVs e carros. Mesmo assim, querem proporcionar um lazer mais barato para a família. Digamos que sobram R$ 20 no final de semana, então ela leva a família para tomar um sorvete”, conta o sócio-diretor da Fri-Sabor, Marcelo Mayer.

Com uma fábrica e diversas lojas de sorvete no Grande Recife, a marca também comemora os resultados deste ano. Segundo Mayer, o faturamento da empresa cresceu 21% até setembro e deve faturar R$ 15 milhões no fim do ano. “Nosso plano era crescer 30%. Mas, em um ano tão difícil como este para todos os setores, crescer 21% ainda é positivo. O país está em crise, mas nossa empresa continua crescendo”, diz, contando que a Fri-Sabor ainda elevou sua produção industrial em 37% e inaugurou cinco novas lojas neste ano, tanto em Pernambuco, quanto no Ceará e na Paraíba. Até dezembro, outras seis novas lojas começarão a funcionar e 45 novos pontos de venda (refrigeradores com sorvetes em pote) serão instalados em supermercados.

“A empresa está em franca expansão, tanto no número de franquias quanto nas vendas das lojas. Costumo dizer que temos o privilégio de viver esse momento mesmo em um período de crise”, comemora Mayer, reconhecendo que, mesmo assim, a indústria foi impactada pelas medidas financeiras que acabaram quebrando outras fábricas. Segundo ele, a Fri-Sabor sofreu sobretudo com o aumento nas contas de água e energia e com o encarecimento das matérias-primas importadas. “É claro que a crise também nos atinge e nós temos desafios. Por isso, investimos muito em marketing, oferecendo combos, promoções e novidades em produtos para trazer o consumidor para nossas lojas”, revela.

Fonte: G1 PE

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