• Novembro de 2017
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Bom freguês: empresas estão de olho no poder de consumo dos maiores de 60

Com independência financeira, alto poder de consumo e disponibilidade para investir as economias do “pé de meia” acumuladas em “uma vida”, eles querem sombra, água fresca e produtos e serviços cada vez mais adequados as suas necessidades. Atualmente, são 23,9 milhões de idosos no Brasil, que representam 11,71% da população do país.

Segundo o último levantamento feito pelo Instituto Data Popular, o rendimento deste grupo atingiu R$ 446 bilhões, representando algo em torno de 20% do total da renda nacional.

De olho neste mercado, as irmãs e enfermeiras Ana e Mariana Mello seguiram a tendência e criaram a Mais 60, uma loja totalmente especializada na oferta de produtos para a saúde e o conforto do idoso – desde itens para adaptação da casa até produtos cosméticos de beleza, específicos para pele madura.

Em um ano e meio de funcionamento, a loja tem tido um crescimento de 30%, com circulação semanal de 70 consumidores que chegam a gastar, em média, R$ 300 por compra. “Os idosos compram muito e investem bastante neles mesmos. Muitas vezes, fazem compras maiores do que os familiares que também visitam a loja em busca de produtos para estes idosos”, garante uma das proprietárias, a enfermeira Ana Mello.

As irmãs gastaram cerca de R$ 150 mil para abrir as portas da loja e devem alcançar o retorno do investimento até o final do ano. “O que eles não encontram, a gente ouve a necessidade e providencia. O idoso não quer só comprar o produto, mas também atenção. É um negócio para um cliente fiel e diferenciado, por isso investimos muito em um atendimento especializado”, completa a empresária.

As irmãs devem implementar ainda este mês uma loja virtual e ainda planejam para o final do ano a oferta de treinamento de cuidadores em domicílio, além de uma grife de roupas para o seu público. “As demandas e os serviços vão surgindo de acordo com a procura. É um mercado que vale muito a pena”, diz Ana Mello.

Tendência

A expectativa de bons negócios da empresária reflete uma mudança de comportamento de consumo por parte dos idosos, como aponta o levantamento feito pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pelo portal de educação financeira Meu Bolso Feliz com pessoas acima de 60 anos.

De acordo com a pesquisa, o consumidor brasileiro da terceira idade tem aumentado o seu potencial de consumo e a disposição para gastar mais. Os números mostram que os idosos têm mudado suas prioridades de consumo e hoje, 41% deles afirmam gastar mais com produtos que desejam do que com itens relacionados às necessidades básicas da casa.

“Assim como o aumento da expectativa de vida tornou os idosos mais ativos, também aumentou a energia para que eles consumam mais”, explica o educador financeiro do portal José Vignoli.

Cenário que se confirma no que é prioridade no orçamento da médica aposentada Ana Fernandes, 71: viajar, ao menos duas vezes por ano. No último mês, ela desarrumou as malas da viagem que fez para China e Japão. “Não deixo de comprar as coisas que eu quero, mas vivo uma vida simples. Não sustento ninguém e equilibrei minha vida”, afirma.

A aposentada faz caminhada todos os dias, investe em alimentação saudável, faz Pilates duas vezes por semana e não deixa de ir ao salão de beleza. “Me preparei para envelhecer. Esse é o pulo do gato”, dá a dica.

Desafio

Para a diretora de Desenvolvimento Institucional do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-BR), Márcia Tavares, a imagem do idoso de hoje está longe daquela vovó que tricotava ou do vovô que passava as tardes sentado na poltrona assistindo seu programa de televisão favorito.

“Essa geração fez história no enfrentamento à ditadura militar, na revolução sexual e tantas outras que parecem trazer consigo a vocação para promover mudanças. Estão em busca de novas possibilidades para experimentar uma vida mais longa”, explica ela.

Algumas empresas têm saído na frente ao enxergar a oportunidade nesta mudança de perfil do idoso que se vê hoje. O Studio de Pilates Griffe do Corpo fez diversas adaptações na estrutura para melhorar a mobilidade dos alunos mais idosos, que correspondem a 40% do número alunos.

A aposta fez com que a empresa diversificasse a oferta de produtos para este público.

“Temos nos capacitado para atender o que o idoso busca. Muitos aproveitam a variedade de serviços e no mesmo dia após a aula de Pilates fazem uma massagem relaxante, ou ainda complementam a atividade física com dança do ventre”, conta Clarissa Maltez, sócia do empreendimento.

A Escola de Idiomas Okey Dokey também abraçou a melhor idade, com a oferta de turmas de aulas de inglês para pessoas acima de 50 anos.

“O foco é específico, principalmente para aqueles que têm interesse em viajar para o exterior”, afirma o diretor da unidade, Jadson Oliveira.

A escola começou com apenas uma turma no início do ano e o número de matriculados já formou mais duas turmas além da inicial.

“As pessoas ligavam para a escola e não queriam estar em uma turma convencional ou contratar aulas particulares. O formato da aula é mais cuidadoso e segue o ritmo do idoso”, considera Oliveira.

Ao mesmo tempo em que estão consumindo mais, os brasileiros da terceira idade têm demonstrado um perfil mais exigente em relação aos produtos que estão adquirindo.

Exemplo disso é que mais da metade (52%) da amostra da pesquisa feita pelo SPC Brasil alega dar mais valor à qualidade dos produtos, mesmo que seja preciso pagar mais caro por isso, o que acaba chamando mais ainda a atenção do mercado.

Eles pagam mais caro, mas querem também um serviço personalizado, como aponta a proprietária da franquia baiana da Home Angels, que opera na oferta de cuidadores, Paula Coutinho. “Vejo um futuro nisso aí. É uma população independente financeiramente e que não abre mão de cuidados especiais. É justamente nisso que apostamos”, avalia ela.

Perspectivas

Até 2060, a população de idosos no país deve triplicar. Segundo o gerente da Unidade de Acesso a Mercado do Sebrae Bahia, José Nilo Meira, ainda há muitas oportunidades a ser exploradas pelo setor de varejo e serviços.

“Estamos falando de pessoas que têm dinheiro, tempo e vontade de gastar. A renda que recebem é para buscar felicidade”.Entre os segmentos mais promissores estão os negócios na área de alimentação, cosméticos, confecções, turismo e saúde.

“É preciso levar em consideração que o conceito do negócio deve estar especificamente voltado para este público. Identificar as necessidades do idoso, o que o atrai e o faz feliz”. Ainda segundo Meira, os consumidores de terceira idade buscam valores agregados como segurança, conforto e tranquilidade.

“Com os avanços da Medicina, as pessoas estão vivendo mais e melhor”, acrescenta.

Mais de 459 mil idosos ocupam postos de trabalho na Bahia

Seja para complementar a renda da aposentadoria ou para se manter em atividade, na Bahia, 459 mil pessoas com mais de 60 anos ainda ocupam postos de trabalho, como aponta os números do Instituto de Pesquisa Geografia e Estatística (IBGE).

Em todo o país, no primeiro trimestre de 2015, 6,3 milhões de idosos ainda estão muito longe de “aposentar as chuteiras”, fatia que corresponde a 6,9% do total de pessoas acima de 14 anos com ocupação.

“A aposentadoria é tratada, pela maioria, muito mais como um retorno daquilo que contribuiu para a Previdência, do que como um convite à inatividade”, explica o coordenador de disseminação de informações do IBGE, Joilson Rodrigues.

A técnica de enfermagem Zenailda dos Anjos tem 62 anos, se aposentou há dois, mas continua firme no posto que ocupa no hospital onde trabalha. “Ficar em casa só atrai doença. Além disso, tenho como complementar o benefício que recebo”, conta ela.

O salário que ganha é cerca de 80% do valor que recebe pela aposentadoria. “Já ajuda muito. Ficar parada não dá. Ainda tenho energia para trabalhar muito tempo”.

De olho no custo-benefício, idosos devem buscar vantagens

A disputa cada vez maior entre as empresas que desejam conquistar a preferência dos idosos pode ser também uma oportunidade de barganhar benefícios por parte deste consumidor.

Segundo o educador financeiro Ângelo Guerreiro, os idosos devem apostar em empresas que possuem algum tipo de plano ou programa de benefícios e fidelização voltado para eles. “As farmácias, por exemplo, fazem muito isso para se tornar cativas na lembrança do idoso que todo mês compra aquele mesmo remédio”.

Para ele, o consumidor precisa pesquisar bastante estes diferenciais. “Isso vai fazer também com que outras empresas criem algum tipo de benefício para este público. O movimento é mais no sentido de buscar quem o privilegia”, reforça.

Estratégia que a aposentada Lúcia Santos utiliza bastante ao escolher onde irá comprar alguma coisa ou contratar um serviço que precisa. “Vou sempre em busca de quem pode me oferecer o melhor custo-benefício e se preocupa também em tratar bem o idoso. Para mim, é o que faz a diferença”.

Inflação para a terceira idade acumula alta de 9,37% em 2015

O Índice de Preços ao Consumidor da Terceira Idade (IPC-3i), que mede a variação da cesta de consumo de famílias majoritariamente compostas por quem tem mais de 60 anos, registrou no segundo trimestre de 2015 variação de 2,46%.

Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas, em 12 meses, o IPC-3i acumula alta de 9,37% - variação acima da taxa acumulada pelo IPC-BR, que foi de 9,15%, no mesmo período. Para o economista da FGV André Braz, o impacto da inflação nos serviços que atendem os idosos deve aumentar ainda mais o custo de vida para esta fatia da população.

“Eles vão perceber a inflação mais alta por causa do custo de serviços que são essenciais”. Entre os itens que contribuíram para este resultado estão os gastos com saúde e cuidados pessoais, despesas diversas, vestuário e educação, leitura e recreação.

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