• Outubro de 2017
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Em ano difícil, franqueadores criam modelos enxutos, mas operação pede cuidado

Em um ano de incertezas econômicas, as redes de franquias estão apostando em modelos de negócios mais enxutos, que pedem um investimento menor do franqueado. Com custos de montagem e operação mais baixos, o valor dos modelos mais compactos chega a ser 40% menor que o das franquias clássicas.

Na rede de paletas mexicanas Los Paleteros, o franqueado pode escolher entre o modelo de loja física, que custa R$ 435 mil; o quiosque, que custa R$ 290 mil; e, desde o fim de 2014, o carrinho de paletas, com investimento de R$ 140 mil.

"Essa nova operação reduziu em 40% o custo de investimento do franqueado e nos permite explorar mercado menores, diversificando nosso mercado", explica o sócio fundador da marca, Gean Chu.

No fim de 2014, a pizzaria Patroni também começou a comercializar uma operação mais enxuta de suas franquias. A rede, que já possuía os modelos "premium" para o público das classes A e B, e o modelo "classic" para as classes C e D, lançou uma operação "express", para locais de alta circulação de pessoas.

"É um modelo compacto, para locais de alto tráfego. Pode ser implementada em estações de metrô, em rodoviárias, colégios e universidades. A operação também tem um mix de produtos apropriado para um local de alto tráfego: pizzas em fatias, hot-dog, sanduíches, salgadinhos, casquinhas de sorvetes e café, produtos que não são disponibilizados pelos outros modelos", conta Rubens Augusto Júnior, fundador da marca.

O investimento para a nova opção de franquia é de até R$ 150 mil, valor aquém dos R$ 400 mil necessários para a implantação de uma loja Patroni Classic e dos R$ 450 mil para uma loja Patroni Premium. A rede espera vender 50 unidades do novo modelo este ano, ante 45 dos outros dois modelos.

Segundo Júnior, a ideia de apostar em um novo modelo veio da desaceleração na venda de novas unidades franqueadas, principalmente por conta da incerteza econômica no País. "Comecei a construir esse projeto no início de 2014. No ano passado, quando começou a haver essa desaceleração na economia. Não sentimos um desaquecimento no varejo, mas caiu o nível de investimento do franqueado. Começamos a perceber que havia muitos interessados que não tinham recursos para os outros modelos", diz.

Experiência é fundamental

Para formatar a nova operação, o empreendedor viajou para os Estados Unidos e para a Europa, e conta que trouxe muitos equipamentos de lá. A marca também fez uma parceria com a Nespresso, da Nestlé, para utilização das máquinas de café da empresa.

O projeto-piloto do modelo começou a ser operado em outubro do ano passado, em uma calçada bastante movimentada do bairro de Guarulhos. Apesar de ter sido procurado por empreendedores ainda no ano passado, Júnior preferiu esperar alguns meses para começar a comercializar novas unidades. "Eu queria formatar a operação direitinho", afirma.

Para Marcus Rizzo, da Rizzo Franchise, é exatamente essa questão que o faz duvidar do sucesso de franqueadores que apostam em mais de um modelo de franquias. "O franqueador vende experiência para o franqueado. Você tem que perguntar para ele quantas unidades próprias ele já abriu e opera nesses modelos. Ele tem que ter muita experiência em todos esses modelos, ou então está usando como rato de laboratório", diz.

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O consultor se diz bastante incrédulo sobre esse movimento de redes de franquias. "Eu acho que é falho. Quando tenho mais de um modelo de negócios, não tem nenhum. O McDonald's não tem vários tamanhos de loja. Isso é coisa de franqueador interessado apenas em vender produtos ou que tem zero de experiência."

A Los Paleteros não implementou uma operação própria do novo carrinho para testá-lo, mas garante que embasou bem o novo modelo de negócios. "Os franqueados compraram a ideia. O projeto foi bem embasado, contratamos um escritório de arquitetura para criar esse conceito. O primeiro carrinho começou a ser operado há cinco meses e trocamos ideias com esse primeiro franqueado. Pouco tempo depois, já tínhamos uma fila significativa de interessados", afirma Chu.

Operação menor reduz custos

Maria Clara Guimarães, de 49 anos, já tinha uma loja da marca de lingeries Hope em um shopping de Belo Horizonte quando resolveu investir no novo modelo 1.0 da rede, mais compacto e barato. Segundo ela, a nova opção solucionou dois problemas: o alto custo da operação em shopping centers e a dificuldade de mão de obra.

"Eu investi no 1.0 diante do alto custo de operar em shopping hoje, Além disso, a mão de obra para shopping está difícil, tem uma alta rotatividade de funcionárias por causa do horário. Muitas vezes, o alto custo inviabiliza o negócio. Você trabalha para pagar o boleto do aluguel", afirma.

Há duas semanas, Maria Clara abriu sua loja de rua. Ela conta que paga R$ 3,5 mil mensais pelo local, frente aos R$ 20 mil que desembolsa pelo espaço no shopping todo mês. "Estou muito otimista com a loja", diz.

O modelo 1.0 da Hope surgiu no fim do ano passado com um projeto arquitetônico mais barato. Segundo o diretor de expansão de franquia da rede, Sylvio Korytowski, o objetivo é aproveitar o momento de crise para aumentar a capilaridade da empresa.

"Tem entrado muitas novas marcas no setor de moda íntima. Somos uma marca referência e precisamos ganhar capilaridade, então bolamos esse projeto que custa 50% do modelo clássico. Mas tomamos cuidado, porque o projeto não é uma segunda marca, então queremos que o público enxergue a Hope nele. Fizemos uma reengenharia na parte de marcenaria, vidraçaria, para adaptar o modelo com equipamentos mais econômicos", conta Korytowski.

Na operação 1.0, o mix de produtos obrigatório também é um pouco menor. O investimento é de R$ 250 mil, ante os R$ 450 mil do modelo tradicional.

A primeira operação foi aberta em fevereiro, em Poços de Calda e, segundo o diretor, devem ser 12 inaugurações até julho deste ano. De acordo com a empresa, 70% das novas franquias da marca inauguradas em 2015 devem ser desse modelo.

Segundo Korytowski, é a marca que decide em que locais os modelos mais enxutos podem ser implementados. "Nós temos mapeados onde cabe franquia tradicional e onde cabe o modelo econômico. Quem define somos nós. O bom dessa nova operação é que você pode criar amplitude onde antes a marca não alcançava."

O que levar em consideração?

Segundo Diego Simioni, sócio-fundador da consultoria de negócios GoAkira, quem precisa escolher entre investir em um modelo clássico ou econômico, deve prestar atenção a alguns pontos.

"Além de analisar se o franqueador tem experiência no modelo de negócios, é preciso pensar na expectativa em relação ao lucro. Você pode investir na enxuta porque ela é mais barata, mas a retirada mensal pode ser de um valor que não é o suficiente para o seu padrão de vida. A pessoa pode se frustrar", explica.

Já Claudia Bittencourt, diretora do Grupo Bittencourt, aposta na avaliação do mercado. "É preciso fazer uma bola avaliação do potencial do mercado, saber o consumo do público-alvo, avaliar a concorrência e adequar seu produto para a região onde você vai operar."

Fonte: IG Economia