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Sexta-feira, 23 de Julho de 2010
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Teles se armam contra companhias ponto-com
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A queridinha de executivos, empresários, consultores e economistas de qualquer corrente está perdendo seu charme. Ninguém duvida do potencial econômico da internet e da tecnologia digital, mas o mundo ponto-com já não é mais encarado como aliado incondicional das empresas. Em alguns setores, pelo contrário, os novos tempos trazidos pelo avanço da web trouxeram prejuízo e a necessidade de reinventar o modelo de negócio.
O caso mais recente é célebre e envolve as operadoras de telecomunicação. As teles preparam ofensivas contra empresas como Apple e Google - não por acaso, ambas representam os maiores cases de sucesso recente da tecnologia digital. A proposta das operadoras é ousada: querem dividir investimentos com as companhias de internet. O raciocínio é que o aumento brutal do tráfego internacional de imagem, som e dados multiplicou a necessidade de investimentos.
Telefónica, Vodafone, América Móvil, Verizon e AT&T são algumas que querem renegociar com as maiores companhias ponto-com, que lançam serviços mensalmente e, com isso, elevam a necessidade de infraestrutura de banda de internet - vendida pelas teles. As operadoras, em média, investem quase 10% de sua receita na renovação dessa infraestrutura, enquanto a Google precisa investir menos de 0,5% de seu faturamento. Sites como o Youtube, da Google, ao mesmo tempo em que trouxeram receita extra para seu proprietário, aumentaram a demanda por tráfego ofertado pelas teles.
Aparentemente, não faz sentido para as operadoras reclamar do excesso de demanda - seria o mesmo que um fabricante de balas queixar-se do aumento do consumo. Ocorre que, para as teles, o crescimento do tráfego seria insustentável, sendo impossível ser acompanhado pelas receitas. Ivan Moura Campos, consultor em tecnologia da informação, discorda dessa lógica. “Por mais que reclamem, as operadoras se queixam de algo pelo qual recebem dinheiro”, afirma. “A Google, por exemplo, paga uma fortuna pelo tráfego de que necessita.”
Mais importante ainda do que saber quem tem razão na briga, é lembrar que esse é, certamente, mais um caso que guarda, mais do que uma polêmica, a necessidade de reposicionar-se no mercado. Ou, falando de outro modo, repensar o modelo de negócio. Moura Campos não duvida que esse raciocínio chegará também às teles. Como já chegou às empresas de mídia, de música, cinema, varejo, entre outros setores seriamente afetados pelo avanço da tecnologia digital.
A mídia impressa, por exemplo, começa a encontrar soluções, embora ninguém possa afirmar que já encontrou a saída. A internet representou uma forte pancada para esse segmento, já que multiplicou quase infinitamente o número de concorrentes. A circulação dos principais jornais americanos, despencou nos últimos dez anos, num fenômeno que também já ocorre no Brasil, embora mais timidamente.
Mas a revista de tecnologia Wired, dos EUA, não está só lamentando. Seu último número vendeu 90 mil cópias - detalhe: foi a sua primeira edição digital, vendida pelo iPad, o minicomputador portátil lançado pela Apple este ano. Vendeu mais que a edição nas bancas. A Wired fez o óbvio: reconheceu que a internet foi um inimigo invencível, como lembra B. Piropo, colunista do caderno Informátic@, do EM: “Sempre soubemos que, quando uma evolução tecnológica entra em choque com o sistema legal constituído, a tecnologia vence sempre”.
É o que ocorreu com a indústria de música. No fim das contas, ela perdeu. As grandes distribuidoras fonográficas do mundo hoje faturam bem menos e têm importância menor no mundo musical. Durante anos, a RIAA, que representa a defesa dos direitos autorais, partiu para uma luta inglória contra a internet e a pirataria. A melhor caricatura disso foi o processo que moveu contra um americano de 75 anos cujos netos estavam baixando músicas ilegalmente pela web. Como se sabe, não adiantou. Hoje, as gravadoras e distribuidoras faturam com a venda de músicas por centavos e com serviços - shows, marketing etc. É menos do que antes? Sim, mas é assim mesmo que funcionam as coisas.
“Os donos de carruagens em Londres odiaram a Ford, quando a montadora lançou no início do século passado o Ford de Bigode”, lembra Piropo. O ódio não adiantou muito, como se sabe, mas até hoje dá para ver serviços de carruagem na capital britânica - em outro patamar, é claro.
O avanço da internet sobre os costumes se deu também nas corporações. No fundo de tudo, uma razão objetiva: a web atacou um dos princípios do estabelecimento de preços, o desconhecimento dos valores cobrados pela concorrência. Isso afetou diretamente o varejo. Há não mais do que 15 anos, quem queria comprar uma geladeira teria como saber o preço em três, quatro, cinco lojas, no máximo. Hoje, a um clique e mexer de mouse no computador, é possível fazê-lo em dezenas delas. “Não tenho dúvidas que as grandes redes já estão pensando em como se posicionar”, diz Moura Campos.
Não é à toa que o acadêmico inglês Richard Barbrook chegou a cunhar um termo estranho e até engraçado: cibercomunismo. Há aí talvez um exagero, mas não há dúvidas que as empresas precisaram e precisam repensar seus negócios. Quem ficar só no ódio vai acabar morrendo.
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Fonte: Estado de Minas
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Tags: Telecomunicações, Tecnologia
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