• Outubro de 2017
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Nossas gaiolas mentais: ‘não tenho dinheiro para iniciar um negócio’

Pensando em empreender, mas ainda não tem o capital inicial? Uma amiga, Tina Seelig, professora de criatividade da Universidade de Stanford, fez com que seus alunos vivenciassem uma experiência de duas horas, que mudou para sempre não só a resposta para esta pergunta, mas a pergunta em si. Ela dividiu a classe em quatorze grupos e deu um envelope com cinco dólares para cada equipe. Era uma tarde de quarta-feira e as turmas teriam até a noite do domingo para colocar em prática a ideia de negócio que rendesse o máximo de dinheiro. Teriam todo o tempo para pensar, entretanto ao abrir o envelope, só teriam duas horas para executar a ideia.

Na segunda-feira, cada grupo teria três minutos para apresentar seu projeto para a classe. Alguns grupos pensaram em comprar um bilhete de loteria, contudo desistiram diante da probabilidade de ganho, outros pensaram em criar um negócio de lavagem de carros, barraca de limonada e serviço para enchimento de pneus de bicicletas, um meio de transporte popular na universidade. Na apresentação dos trabalhos, Tina ficou impressionada, já que na média, os grupos transformaram cinco dólares em duzentos e cinco dólares.

Um grupo foi muito criativo e criou um serviço para colocar pessoas em filas de restaurantes concorridos, que vendiam suas senhas por vinte dólares para clientes que não desejam esperar mais de uma hora pela sua vez. Outro fez mapas da região para vender para os turistas e houve um que ganhou dinheiro com fotos em eventos. Entretanto, o grupo vencedor, que faturou 650 dólares não havia utilizado o dinheiro e nem as duas horas. Como os alunos de Stanford são muito demandados em função da região em que está, o Vale do Silício, o grupo vencedor vendeu os três minutos que tinham para que uma empresa anunciasse suas vagas para a classe. O grupo percebeu que o que tinha de mais valioso não eram suas limitações de recurso e tempo, mas que poderiam resolver outro problema a partir de uma nova perspectiva.

Mesmo não conhecendo a Tina, Tallis Gomes, quando era adolescente na pequena cidade mineira de Carangola, queria comprar uma bateria para sua banda de música. Sem muito dinheiro, teve a ideia de criar um catálogo de telefones celulares vendidos no Mercado Livre aumentando os preços em 25%. Com o catálogo impresso foi abordar as pessoas na rua. Assim que a pessoa comprava, pedia o pagamento antecipado, entrava no Mercado Livre e colocava os dados de entrega do seu cliente. Em poucos dias, sua banda já tinha uma bateria novinha. Anos depois, Tallis fundou o Easy Taxi, gastando quase nada para tirá-la do papel no início.

Ainda seria possível contar dezenas de outras histórias de empreendedores que não se limitaram pela falta de recursos quando iniciaram seus negócios, mas meu aprendizado mais recente veio de um jovem aluno, o Victor Fiss, na época com 21 anos. Quando entrou na faculdade, descobriu que todos que tinham um notebook Apple precisariam fazer ajustes para conseguir rodar os diversos programas utilizados nas matérias. Alguns veteranos faziam estes ajustes, mas cobravam 200 reais pelo trabalho. Ele achou caro e disse que conseguiria pagar 50 reais pelo ajuste, prontamente negado pelo veterano, que fez uma contraoferta de 150 reais. Achando o valor ainda alto, Victor fez outra pergunta: “Se eu trouxer dois alunos, você faz o ajuste de graça para mim?” Visto desta perspectiva, o veterano aceitou rapidamente. Minutos depois, Victor aparecia com mais dois clientes. Com o notebook ajustado, ele fez mais uma pergunta: “A cada cliente que trouxer você me paga 50 reais?”.

Novamente uma resposta positiva do veterano. No dia seguinte, Victor apareceu com uma lista de 40 clientes… Agora, quase dois anos depois, ele captou dinheiro de diversos investidores e com quase nada de capital inicial próprio, abriu sua primeira clinica médica popular. Não satisfeito, já fechou novas rodadas de captação para abrir outras unidades.

Por isso, para quem ainda sonha em empreender, mas ainda posterga o sonho devido à limitação do capital inicial, Tallis Gomes dá um tapa na cara para quem deseja acordar: “Quem quer vai lá e faz. Quem não quer, inventa desculpas!” – diz.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

Fonte: http://blogs.pme.estadao.com.br/blog-do-empreendedor/nossas-gaiolas-mentais-nao-tenho-dinheiro-para-iniciar-um-negocio/