• Setembro de 2017
Home / Artigos / Tendências

Setor industrial de SP registra a pior onda de demissões

A literatura econômica do Brasil costuma sempre mencionar, sempre que possível, a chamada década perdida, quando se fala em história recente. Trata-se dos anos 80, com hiperinflação crônica, desemprego alto e crescimento quase zero ao longo dos dez anos. Entretanto, pouca atenção é dada a uma consequência funesta da década perdida, anos 90, agravada por uma política industrial suicida e nociva iniciada no governo Fernando Collor (1990-1992) e agravada nos dez anos de Itamar Franco-Fernando Henrique Cardoso (1992-2002): o desmantelamento do parque industrial da Grande São Paulo com a abertura indiscriminada do mercado brasileiro às importações, provocando a perda de 300 mil postos de trabalho com carteira assinada entre 1993 e 1998.

Vinte anos depois, uma política econômica e industrial desastrada revive o mesmo drama, com o esfarelamento da indústria, com queda acentuada de produção e desemprego em massa. Só que agora temos um agravante: o desemprego, sobretudo industrial, avana para o interior do Estado. A indústria de Rio Preto cortou 2,5 mil vagas em 2014 - elevando para 7 mil as demissões desde setembro de 2013. é muita coisa mesmo para ma economia ainda tida como pujante no Estado de São Paulo. Em setembro, as indústrias do Estado demitiram 6 mil trabalhadores, segundo o Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo); no Brasil, no mês passado, foram 59 mil cortes, segundo dados da Pesquisa Mensal de Emprego, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Na comparação com setembro de 2013, foram eliminadas 238 mil vagas, o equivalente a um recuo de 6,4% no número de empregados. O economista Hipólito Martins Filho, da Faculdade Dom Pedro 2º, o aumento no desemprego no setor e a desaceleração na produção industrial acabam influenciando diretamente no desenvolvimento do País. "A indústria gera a tecnologia de um País, é ela quem paga os melhores salários, que atrai universidades para uma cidade, e que está ligada ao desenvolvimento da base. Uma indústria devagar retarda o processo." Para o diretor da regional de Rio Preto do Ciesp, José Luiz Franzotti, os números são resultado de duas questões. A primeira, e mais importante, é a atual situação econômica do País - a economia perdeu fôlego e está estagnada.

Já a segunda está ligada ao cenário político, que leva os empresários a segurarem um pouco seus investimentos. "A situação toda demonstra claramente que estamos vivendo em um momento de recessão e a indústria é o medidor mais claro disso. Quando a indústria demite é porque não há demanda. A tendência é sombria: não existem indícios que de haverá um reaquecimento da demanda, a única forma de conter as demissões na indústria e, por tabela, no comércio. Não há mais tempo para que o governo federal, envolto em uma disputa eleitoral ferrenha nos últimos meses, faça algum "milagre", na forma de incentivos, para fazer a roda girar mais rápido. E isso fica claro quando a Receita Federal divulga que houve queda sensível na arrecadação de impostos em 2014, na comparação com 2013. os empresários querem mais incentivos para a indústria, coisa difícil de ocorrer no médio prazo justamente por conta da recessão.

Ciesp estima 100 mil demissões em 2014

As projeções para 2014 a respeito do emprego industrial são cada mais pessimistas. De janeiro a agosto deste ano, a indústria paulista demitiu 31,5 mil funcionários, segundo pesquisa da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp). E o ano de 2014 deve terminar com o fechamento de mais de 100 mil vagas de trabalho no setor manufatureiro de São Paulo, prevê Paulo Francini, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) das entidades. "Faltam dois meses para completarmos o ano e nós não vemos sinais de que tenhamos alguma recuperação. Nossa previsão é de que, ao completar o ano de 2014, vamos ter uma variação que vai superar o ano da crise, ou seja vai ultrapassar os 100 mil empregos[A MENOS]."

O diretor compara o fraco desempenho de 2014 com a baixa performance da indústria em 2009. A diferença, segundo ele, está em uma ligeira recuperação que a indústria demonstrou no segundo semestre daquele ano, "coisa que não se verifica em 2014". Somente em agosto, 17 dos 22 setores avaliados pela pesquisa do Depecon anotaram baixa em seu quadro de funcionários, e cinco aumentaram seu pessoal. Já no mesmo mês em 2009, apenas nove setores registraram demissões, enquanto 11 contrataram. "Portanto, em agosto de 2009, havia certa recuperação. Por isso, vamos fechar o ano com panorama pior do que o ocorrido em 2009."

As demissões se espalharam pelo Estado. O emprego na região de Matão caiu 3,18% entre agosto e setembro, influenciado por perdas nos setores de máquinas e equipamentos (-4,39%) e de produtos alimentícios (-2,21%). Já em Araçatuba, a queda no mercado de trabalhou chegou a 1,99%, com baixas mais expressivas nas indústrias de produtos alimentícios (-5,90%) e de artefatos de couro e calçados (-0,35%). Araraquara também computou queda, de 1,68%, pressionada por demissões entre fabricantes de máquinas e equipamentos (-6,75%) e também de produtos alimentícios (-1,45%). As indústrias da região São Carlos também registraram alta, de 0,71% no emprego.


Análise

É possível amenizar os efeitos da crise

O pesadelo do industrial em épocas recessivas chama-se custo. Para muitos deles, a sobrevivência de uma empresa quando a demanda some passa pelo enxugamento total e completo, mesmo que, para isso, desperdice-se capital humano arduamente trabalhado. As cartilhas não variam: o trabalhador passa a ser visto como um custo pesado demais quando as vendas e o faturamento caem. Não há mágica capaz de reverter um processo recessivo no curto prazo. José Luiz Franzotti, do Ciesp de Rio Preto, diz que o governo federal precisa dar mais atenção ao setor industrial para que este seja mais competitivo, e sugere a adoção de incentivos que estimulem a produção.

De certa forma, é basicamente a agenda sempre defendida pela Fiesp e pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) no Congresso Nacional, mas, no curto prazo, pouco ou nada influi na manutenção do nível de emprego ou na contenção das demissões. Ok, são mais do que necessárias a reforma tributária, um o projeto de desoneração da folha salarial que preserve a maioria dos direitos trabalhistas e reformas estruturais que diminuam os custos de fretes. No entanto, localmente, o poder público também facilitar a vida das empresas, coma revisão de tarifas de infraestrutura e a adoção de pacotes de incetivos. Infelizmente, a economia nunca fez parte da ordem do dia em Rio Preto.